22 de mai. de 2008

Ensino Religioso Escolar (E.R.E.) é diferente de Religião

por Cícero C. Souza

O QUÊ?
ENSINO RELIGIOSO
RELIGIÃO
ESPAÇO
-> Lugar
PROFANO
-> Escola
SAGRADO
-> Igreja, Templo, Terreiro, Mosteiro, Sinagoga, Mesquita, etc.
OBJETO
A VIDA (tudo)
A(s) DIVINDADE(s)
OBJETIVO
A Busca do sentido profundo da vida; o estudo do fenômeno religioso
O Encontro d@ religios@ com a(s) Divindade(s)
MÉTODO
O ESTUDO – A pesquisa, a pergunta
Os RITOS – Celebrações, orações, despachos, oferendas, etc.
SUJEITO
@ Alun@
@ Religios@
MINISTRO
@ Professor(a)
SACERDOTES – O padre, o pastor, o babalorixá / a yalorixá, o imã (imame), o rabino, o xamã, etc.
Tab.1 – Elaborada por Cícero C. Souza
O Ensino Religioso Escolar[1] (E.R.E.) é diferente dos ensinos dados nas diferentes confissões religiosas. A primeira diferença entre ambos é dada pela linguagem. No primeiro trata-se da linguagem das ciências, notadamente, das ciências das religiões e da antropologia. Já a linguagem religiosa por excelência é a da fé. Para o E.R.E. trata-se de conhecer. Para as religiões trata-se de crer. Ora, é possível conhecer para crer, mas, não é suficiente. A crença, a adesão está em patamar diferente do conhecer. Conhecemos para saber do que se trata, para não agirmos baseados em mera opinião, em pré-conceitos.
Ora, algumas diferenças entre o E.R.E. e as Religiões são apresentadas na tabela 1, acima. A primeira delas se refere ao espaço em que ocorrem. Então, recorreremos à terminologia de Mircea Eliade que distingue entre o sagrado e o profano. Assim, reconhecemos que o Ensino Religioso faz parte do espaço profano, pois é uma disciplina escolar, isto é, dada na escola. Diferentemente, o espaço da religião é o espaço sagrado, pois que lugar de encontro entre os religiosos e a divindade ou, dito de outra forma, lugar de manifestação (teofania) da divindade aos religiosos. Cabe, aqui, ressaltar que o E.R.E. acontece em um espaço singular-plural. O paradoxo aqui colocado se refere a que a escola é singular posto que é regida por uma lei geral, a do Estado (a Constituição Federal, por exemplo) que vale para toda escola. Por outro lado, a população atendida pela escola é plural, configurada nos mais diferentes matizes, de gênero, raça, religião e convicções.
Assinalamos que o objeto (formal) do Ensino Religioso é a Vida. E, que nos conste, tudo faz parte da Vida, seja a convivência de uns para com outros, seja a política, a religião ou mesmo a morte. Portanto, o E.R.E. pode trabalhar qualquer tema. Já o objeto (formal) da Religião é outro: a divindade ou as divindades, dependendo da religião, se é monoteísta ou politeísta.
No que se refere ao E.R.E. o seu objetivo é duplo. A busca do sentido (profundo) da Vida e o estudo do fenômeno religioso. Da religião, o objetivo é “possibilitar o encontro entre o religioso e a(s) divindade(s) em uma comunidade de crença”.
Também é diferente entre o E.R.E. e a Religião o método. Ora, o E.R.E. recorre ao estudo, fundamentalmente, à pergunta, à pesquisa para a consecução de seu fim (que é uma busca). A Religião já sabe qual é o seu fim. Então, ela expressa o encontro através de variados ritos: a celebração, a oração, a oferenda, os hinos, etc.
Agora, nos posicionaremos em dois aspectos finais diferenciadores. Trata-se do sujeito e do ministro. O sujeito do E.R.E. é o aluno: ele é – mais que aluno, estudante – pois, está vivo, vívido por conhecer, saber, inquirir. Numa palavra é buscante (e não nos esqueçamos que, via de regra, o aluno é um adolescente). O sujeito da Religião é o religioso. Ora, esse já chegou. Portanto, sua ação é de agradecimento, piedade, submissão à divindade que o criou e o sustenta. Num caso, a postura é de interrogação (o E.R.E.), em outro, é de admiração, de veneração. Do ministro falaremos no próximo parágrafo.
Ao ministro do E.R.E. cabe possibilitar que o aluno faça suas perguntas e encontre ambiente propício para respondê-las. Já ao ministro religioso cabe ajudar o religioso a encontrar-se com a(s) sua(s) divindade(s). Vale lembrar que enquanto o ministro do E.R.E. é o professor, o ministro da Religião é plural – visto que não há uma religião, mas várias. Assim é que a título de exemplo colocamos o padre e o pastor (pelo Cristianismo), o babalorixá e a yalorixá (pelo Candomblé), o imã, imane (pelo Islamismo), o rabino (pelo Judaísmo), o xamã ou pajé (Xamanismo): a lista é enorme. Vale ressaltar a pluralidade.
Para concluir, lembramos que o objetivo operacional do E.R.E., enquanto disciplina escolar, é que cada aluno-estudante conheça o mundo em que vive e conhecendo valorize a sua própria cultura e respeite a cultura do outro. Portanto, o E.R.E. visa à construção da paz em um mundo extremamente diversificado e, às vezes, intolerante.




[1] W. Gruen diz Ensino Religioso Escolar para distingui-lo da catequese coisa de igreja.

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